Solitariedade seletiva

Inspirado, talvez, pelo recém-nascido blog da Lígia (bem bom, colem lá), estou tentando fazer posts com mais de 20 palavras agora. E o tema desse é propício, super do momento: “ser político” na internêt.


Auto-jabá contextualizado: eu acho mesmo que essa música tem a ver com o assunto, reparem na letra

Ninguém vai acreditar, mas eu estava pensando sobre isso desde antes desse lance #forasarney-piratas do twitter-subcelebridades (link para um dos títulos de matéria mais maldosos que eu já li). E por quê? Porque se tem uma coisa que eu tenho acompanhado com fervor de noveleiro nesses últimos meses são os incríveis desdobramentos da Operação Satiagraha. Pra mim, ela tem sido diversão garantida, um roteiraço, com herói claudicante, vilão maquiavélico, juízes aloprados, jornais vendidos… Até a tradução do nome para o português é novelesca: “Resistência pela Verdade”. Um pouco corny, mas ainda sim.

Seria difícil resumir aqui num post a novela toda, mas a página da Wikipedia que eu linkei aí em cima é um começo. Fora que, dependendo da fonte em que se informa sobre, você pode contá-la de um jeito diferente. Mas um resumo mental de porque eu gosto tanto dela é algo assim (pode pular esses itens, se quiser):

    Ele tem barba, é um jovem

    Ele tem barba, é um jovem

  1. Protógenes Queiroz (vá lá, nosso Skywalker malajambrado), um delegado com várias operações cabeludas (e aplaudidas pela mídia) na bagagem, deflagra a prisão de Daniel “Darth” Dantas, banqueiro multitrilhardário, do Naji Nahas, investidor que quebrou a bolsa do RJ, e o sempre hilário Celso Pitta, entre outros;
  2. Gilmar Mentes, o Darth Maul do nosso Darth Vader, atropela todas as instâncias da Justiça (ahem) brasileira e aceita um habeas corpus pedido pelos advogados de Dantas (porque né, pra quê passar por tantos intermediários? Bate no STF logo);
  3. Como que já sabendo da estratégia, Protógenes entra com novo mandado de prisão para Dantas Vader, aceito pelo juiz de primeira instância Fausto de Sanctis, outro personagem importante da história. O pensamento deles, imagino, é que GilMaul Mendes não seria celerado o suficiente pra cagar duas vezes seguidas na cabeça de todo sistema judiciário nacional, ainda mais com a mídia olhando;
  4. Gilmar Mendes supreendes e faz exatamente isso, despachando de madrugada um segundo habeas corpus. Determinação em fazer justiça é isso aí. Lembrando que o único precedente na justiça de STF soltando banqueiro nessas condições era o do Salvattore Caciolla, que fez o quê? Fugiu. Ou seja, ÓTIMO precedente;
  5. Mais de 400 juízes assinam manifesto apoiando o de Sanctis, que além de tudo foi esculachado pelo Mendes na segunda decisão. Só faltou chamar de moleque (se é que faltou). Juízes do STF discordam, vira um bafafá dos diabos. Sem contar uma polêmica ridícula da proibição do uso de algemas, uma farofa inacreditável;
  6. Daí pra frente, a guerra é travada nos jornais e revistas: a Veja (que antes malhava o Dantas!) inventa, sério mesmo, inventa um grampo de um diálogo (totalmente inócuo) do Gilmar Mendes com outro carinha lá (é muita gente, não cobrem), e em cima disso começa uma campanha contra “o estado policial que ameaçava fincar estacas no coração da democracia” – juro procês que escreveram isso.
  7. Cria-se uma “crise” carnavalesca em cima disso que custa a cabeça do diretor da Abin, Paulo Lacerda (uma espécie de Yoda do nosso Luke), por teoricamente TER AJUDADO NA INVESTIGAÇÃO. Ou seja, da primeira vez que essa porra de Abin faz alguma coisa útil, o cara é mandado embora. O ponto é: do nada, passa a ser mais importante investigar um grampo sem nenhuma prova além da tinta da Veja e ignora-se o fato de que o esquema do Dantas com o Opportunity tinha desviado trocentos bilhões de reais;

Bem, vou parar de enumerar porque ninguém vai ler tudo isso mesmo. Mas olhe para o volume de texto que tem aí: ele prova que são muitas as razões pra acompanhar essa trama farsesca. E eu ficava INDIGNADO que no nosso mundinho classemédiablogosferaindiecooluniversopop um remix do Cut Cuty pro lado B do single descartado da Britney repercutia mais que absurdos como isso. E eu me perguntava: porra, ninguém mesmo quer saber sobre política?

Daí sou surpreendido pela recentíssima adesão em massa a um “protesto virtual” contra os atos secretos do Sarney. Lógico que é ridículo um cara empregar a família inteira no Senado, atos secretos pra aumentar salário etc., mas convenhamos, alguém não sabia disso, porra? Os Sarney têm o Maranhão só pra eles desde sempre. E alguém não sabia que Brasília é uma farra de cargos sem fim? Não que não seja necessário, mas se for pra limpar o negócio lá nesses termos, não sobra nem faxineiro.

Vou botar um desse aqui nocêis, ó

Fora que, a se comparar o rombo que o esquema de Dantas faz no erário, o salário dos contratados pelo Sarney é troco. Se comparar com os precedentes desgraçados que o Gilmar Mendes está abrindo na Justiça brasileira, desmoralizando o que parecia impossível de desmoralizar mais, o mal fica quase inofensivo.

“Mas pelo menos se faz alguma coisa!”, dizem os atuantes virtuais, reunidos debaixo do Masp. Sim, inegável, mas a pergunta que tem que ser feita tanto pros Piratas-#forasarneys quanto pros altamente suspeitos tô-nem-aí-pra-protesto-de-sofá-de-subcelebridades é, com o perdão da palavra, porque CARALHAS fazer um movimento “político” contra um peso morto como o Sarney, quando tem caras muito piores fazendo coisas absurdas debaixo dos nossos narizes? Get your priorities straight, man!

O que nos leva ao “debate” que está rolando atualmente em twitteres (estou levando essa merda muito a sério, vocês podem ver) e blogs e lugares afins: como se pode ser político nos tempos de interwebs?

Tomou fumo da crítica

Tomou fumo da crítica

A primeira figura que vem à baila nos debates é o Tico Sta. Cruz, por sua já extensa experiência no campo “pessoa conhecida que faz coisas políticas”. A acusação dos que não gostam é sempre de que sua banda não faz mais sucesso como antes (o que não é mentira) e ele faz isso “pra se amostrar”. Pesa contra o cara, também, que ele às vezes defende suas opiniões de forma chata pra cacete e volta e meia linka o (irc) Reinaldo Azevedo, mas preciso concordar com ele nesse ponto: o grande jogo, hoje, não é ficar em evidência? Male male, ele achou seu jeito. Quando a Beth Ditto mete a boca na Katy Perry exatamente na semana de lançamento do disco do Gossip, a meu ver é a mesma coisa. E ele (Tico) tem lá sua consistência ideológica, se mete em diversos assuntos faz tempo, não acho que se possa desmerecer o cara assim, de imediato. [EDIT: o fail da passeata dele, reportado pelo Estadão (ó o cara ganhando espaço aí), diz muito sobre a superdimensão que tanto ele quanto os críticos fazem da capacidade da internet mudar a opinião das mobilizar as pessoas politicamente.]

Agora esses twpiratas, bem, ingenuidade política não é nenhuma novidade no nosso combalido “star system” (entenda aqui, no post de título maldoso do caderno Link – que é do Estadão, o que de certa forma também o coloca em uma posição delicada para discutir atuação política). Os “piratas” (aliás, por que catzo esse nome?) são um exemplo bem acabado do que o Stephen Colbert batizou de “solitariedade“: “uma nova forma de ativismo, onde cidadãos passivamente observam abusos dos direitos civis para blogar melhor sobre eles da segurança da casa dos seus pais“.

Mas pra encerrar esse assunto logo, vou discordar um pouco de quem só fica tripudiando em cima dos caras. É a mesma coisa que ficar batendo no fato do emo estar na moda, “usando o rock’n’roll pra aparecer”. Bem, pelo menos é alguma coisa parecida com rock, coloca as guitarras de novo na moda, faz moleques montarem trocentas bandas ruins, mas uma ou outra coisa boa pode surgir disso.

Igual com política. Os caras estão liderando uma massa de pessoas jogando para a platéia por motivos equivocados, mas vai que um ou dois lá no meio dos seguidores criam algum senso crítico? Mais chances disso acontecer do que discutindo “cultura pop” o tempo todo, convenhamos.

Galera caga e anda mesmo

Caga e anda? Ao menos seja fofo about it

Lugares para ler, se você torce pro Protógenes:
Blog do Nassif
Terra Magazine

Se você torce pro Gilmar Mendes:
Blog do Reinaldo Azevedo
(não vou linkar pq é bad karma)

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10 Respostas to “Solitariedade seletiva”

  1. Kevin Says:

    Pois é cara, achei meio bobagem isso tb, já tava na cara que o ticostacruz nao ia ter quase ninguem lá mesmo… porém tb acho válido…

    O problema é a corja dos “chegamos primeiro por isso sabemos usar a ferramenta melhor que vcs” que para mim, são como o povinho com “sindrome do underground” da musica. (já q vc fez uma comparação musical com os emos). O que qualquer um fizer por lá, será “errado”.

    E concordo com vc também na parte de que se preocuparam com “peixe pequeno” (se é que podemos falar isso do Sarney).

    Não lembro onde que eu vi, mas o esquema Collor, PC Farias e etc deu muito menos preju do q todos esses últimos casos de corrupção (separados) q tivemos nos ultimos 4 anos…

    Foi onde pensei… se por muito menos rolou impeachment de presidente, assassinatos inexplicaveis e etc. Qual o problema de hoje em dia? A mídia não apura direito? mto conformismo do povo? juventude mto parada? economia que está tão boa, a ponto do povo relevar as merdas que acontecem com a idéia “ah tá dando para viver”?

    Tb acho q não posso criticar muito, pois fico tendo raciocinios politicos em blogs e mesa de bar por aí. Mas não participo nada ativamente. Acho que tb estou errado no final das contas…

    • Gustavo Falso Says:

      Pois é, você pegou o ponto. Eu não sei, a coisa anda tão estranha que a gente acaba sendo obrigado a acreditar em teorias conspiratórias (apesar que eu acho o Paulo Henrique Amorim um pouco escandaloso demais).

      No geral, depois que eu li o tal “Dossiê Veja” do Nassif (procure no blog dele), comecei a ver uma lógica na atuação da imprensa, lógica que explicaria inclusive o fato do Sarney ter virado o bode expiatório da vez. Não que tudo que esteja nesse dossiê seja pra levar ao pé da letra, tem muita interpretação ali, mas aponta fatores interessantes para entender o comportamento de “personagens” como Diogo Mainardi, Lauro Jardim, a Folha, o Estadão, Dantas etc etc

      • Gustavo Falso Says:

        E sim, eu leio bastante o blog do Nassif, hahaha, acho um cara equilibrado e razoavelmente independente, até prova em contrário

  2. Eduardo Marques Says:

    Adorei o fim! “Bad karma”! “Caga e anda”!

    hauauuauhauauhauhahuhauuahaua

  3. Jacidio Junior Says:

    Enfim achei alguém que fale sobre esse assunto de maneira interessante. Como é dificil encontrar pessoas da mesma faixa etária entendo um pouco mais do que rola nos bastidores da notícia. Realmente, eu sei que não tenho feito muita coisa a não ser questionar o posicionamento dos meus amigos mais próximos a respeito das informações que eles têm lido por aí e nas falcatruas que eles acreditam devido a massificação das coisas.
    É triste. Ainda mais que me formei em jornalismo e 95% das pessoas que eu conheço que fizeram esse curso tem a mente mais fechada que c### de virgem, principalmente para política. Alguns se preocupam mais com o meio do que com a mensagem que esta sendo veiculada por aí. Abraço e fico realmente feliz por ter lido seu texto. Vou linkar o seu blog no meu endereço e caso volte a escrever sobre o tema e queira uma outra opinião ou, sei lá, qualquer ajuda estou a disposição. Grande abraço.

  4. ninainwonderland Says:

    gustavo, faça mais posts como esse! fazia tempo que eu não vinha aqui e confesso que a surpresa alegrou minhas primeiras horas da manhã. então, por um lado, a gente vê gente mobilizada (mesmo que seja pouca) por uma boa causa, mas também pessoas que estão cagando e andando literalmente pra política nacional como é o caso de umas sub-celebridades que tem por ai. não precisa ser nenhum gênio pra saber quem realmente é engajado com as causas do nosso governo e quem quer ganhar fama em cima disso. e isso é um absurdo. mas mais absurdo ainda é quem elege essas pessoas e caga e anda para o que elas fazem para representa-las. claro que as pessoas têm que serem incentivadas a participar mais efetivamente de assuntos como a política, mas ainda assim, é uma vergonha que para isso ashton kutcher tenha que dá lição de cidadania para os brasileiros.. enfim, meu comentário já tá virando uma bíblia, mas pra encerrar, eu acho que você é um otimo jornalista e admiro muito seu trabalho, tanto fora qdo dentro do ecos. beijos!

  5. Brancatelli Says:

    RIP ?

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